As relações entre saneamento, mudanças climáticas e desigualdades socioambientais são os temas abordados no artigo “Water and sanitation beyond negotiable sustainability in the post-COP30 urban climate agenda (“Água e saneamento para além da sustentabilidade negociável na agenda climática urbana pós-COP30”), publicado na revista internacional Frontiers in Sustainable Cities, na seção Climate Change and Cities, pela professora Priscila Soraia da Conceição, do Campus Rio Preto da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
A pesquisadora discute a inserção da água e do saneamento na agenda climática internacional no contexto pós-COP30, com atenção às relações entre adaptação climática, financiamento, desigualdades territoriais, justiça ambiental e direitos.
“A COP30 deu mais espaço à água e ao saneamento nas discussões sobre mudanças climáticas. Quis entender se esse avanço também considera as pessoas que vivem sem abastecimento regular de água ou sem coleta e tratamento de esgoto. A pesquisa nasceu dessa pergunta: quando governos planejam ações e investimentos para enfrentar a crise climática, as desigualdades que já existem nos territórios entram de fato nas decisões?”
Dessa forma, o artigo analisa como a água, o esgotamento sanitário e a higiene aparecem nos documentos que orientam a ação climática após a COP30. Esses documentos ajudam a definir prioridades, acompanhar compromissos e buscar recursos.
A pesquisa examinou documentos da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, incluindo o Acordo de Paris e materiais ligados à COP30, além de relatórios da Organização Mundial da Saúde e do UNICEF. Também analisou documentos produzidos pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil e por organizações indígenas da Bacia Amazônica. O período considerado vai de 2015 a 2026. “A comparação permitiu observar como diferentes instituições e organizações apresentam os problemas, as prioridades e as soluções”, explicou Conceição.
A partir desses dados, a pesquisadora indicou que a água e o saneamento ganharam espaço na agenda climática, sobretudo quando podem ser apresentados como metas, indicadores, projetos e necessidades de financiamento, o que colabora na organização de ações e busca de recursos.
Ao mesmo tempo, questões como a falta cotidiana de água, o trabalho necessário para lidar com essa falta e o direito das comunidades de decidir sobre seus territórios recebem menos atenção. A pesquisa também mostra que a água aparece com mais frequência do que o esgotamento sanitário e a higiene.
O artigo usa a expressão “sustentabilidade negociável” para discutir essa diferença entre o que ganha prioridade nos documentos e o que permanece em segundo plano.
“Os resultados publicados no artigo podem ajudar a ampliar os critérios usados para planejar e avaliar investimentos. Contar novas ligações de água ou o valor aplicado em obras é importante, mas também é preciso verificar se o abastecimento funciona todos os dias, se a água é segura, se as famílias conseguem pagar pelo serviço e se o esgoto continua afetando determinados bairros. A pesquisa defende que as populações atingidas participem da definição das prioridades, para que os investimentos em adaptação climática reduzam desigualdades já existentes”, concluiu.
Com informações e foto assessoria de imprensa da UFSCar

